Nem tudo o que vem…

Nem tudo o que vem
vem por acaso.

Por acaso mudaram os dias,
os dias que findavam cedo,
cedo no silêncio das palavras,
palavras que anseiam liberdade,
liberdade para dialogar mais tempo,
tempo que urge do ontem para o hoje,
hoje que é um degrau para amanhã.

Amanhã é um caminho longo,
longo para deixar escorrer a luz,
a luz que preenche o vazio,
o vazio das dúvidas que me habitam,
que me habitam e perseguem na incerteza,
incerteza que tantas vezes estilhaça,
sem saber se é o momento
de deitar para fora
o que está dentro de mim.

Para ti, mãe

Para ti, mãe,
que gostavas tanto da primavera…

Lembro-me de esperares pela primavera
para partires.
Talvez
quisesses levar esses dias
que nascem em silêncio
e, passo a passo,
se vestem de cores e frescos odores.

Lembro-me de esperares pela primavera
para partires.
Talvez
para que as nossas lágrimas
fossem rega para as flores do teu jardim.

Como tu gostavas da primavera,
de mexer a terra e dela colher amor,
amor que semeavas com sabedoria
e simplicidade…

Relembro-te,
entre a saudade que dói,
e a saudade que se veste de vaidade
ao falar de ti…
e ao sentir que vives
em todas as minhas primaveras.

Para sempre,
a tua menina.

Versos em flor

Se faltarem palavras
neste poema,
é porque se vestiram a preceito
e foram recitar poesia.

Aprumaram as sílabas,
perfumaram os versos
e, entre o veludo das quadras,
acolheram as emoções.

Deixaram-me aqui,
com este meio jeito,
enquanto semeio flores
e aguardo uma réstia de sol
para saudar a primavera.

Sou casa

Por um qualquer lugar habitado
Estou eu,
Sem pertencer aqui
Nem a nenhum lado.

Pesa-me o caos que comigo trago
Pesa-me um certo cansaço
Pesam-me as palavras dos certos
A desfilarem sobre as minhas dúvidas.

Eu, que aqui estou,
O lugar onde me encontro
Continua habitável
Por mim,
E pela companhia da minha solidão.

Abrigo

Trago-te para perto de mim,
Para ter o corpo agasalhado
Entre o céu abastado de nuvens
E a chuva que cai sem parar
Mergulhando num deserto
Sombrio,
Pousado dentro de mim.

A vida corre sem tempo
A pele esfria por entre as palavras
Nada pode abrandar a vontade de caminhar
O amor não pode ser adiado
E os dias cansados
Nascem de novo amanhã
E depois… renovados.

Dias de Inverno

Sinto uma sombra,
como um ranger surdo,
sob o teto do meu corpo.

Um frio intermitente
pousa dentro das minhas veias,
e as mãos batalham
já um pouco engelhadas,

enquanto o olhar se mantém quente
agachado por entre a memória,
sim, a memória
que aconchegava os nossos dias,
não de tristeza,
mas de inverno…

Queria tanto conhecer-me

Queria tanto conhecer-me

como quem conhece um rio,

talvez o mar

ou um destino.



Sei que gosto de flores

e de sentir que a primavera

dura todas as estações

dentro de mim.



Queria tanto conhecer-me

com a mesma certeza

que acolho o amor

num abraço quente

e me entrego

à doçura de um sorriso.



Queria tanto conhecer-me

como quem escreve um poema

ou entrega o corpo

a uma dança não ensaiada.



Queria tanto conhecer-me

como alguém que sabe tudo

sinto que ainda não sei nada…