
Da janela do meu quarto
entra uma réstia de luz
que se acomoda
no corpo a amanhecer.
A minha janela
é um horizonte sem mar.
O mar estende-se por outra margem,
ainda assim ouço-o a acordar.

Revisito um lugar,
não um lugar qualquer,
a memória.
Vejo o rosto que brincava
entre os passos
onde moravam todos os afetos.
A infância,
esse lugar inocente
onde se falavam todas as línguas,
onde cabiam todas as brincadeiras,
onde as portas estavam sempre abertas
ao tempo e para o tempo…
Hoje sinto que esse lugar se afastou.
Talvez pela idade,
não sei,
simplesmente na memória ficou…

Escrevo
para preencher uma ausência,
uma folha em branco,
um grito fechado no meu coração.
Escrevo
para emparelhar a inquietação
das perguntas
presas na garganta.
Escrevo
para encontrar silêncio
dentro do meu ruído.
Para procurar sentido
na imperfeição das palavras
que não pronuncio.
Escrevo
porque, enquanto escrevo,
encontro lucidez na minha voz.

Nem tudo o que vem
vem por acaso.
Por acaso mudaram os dias,
os dias que findavam cedo,
cedo no silêncio das palavras,
palavras que anseiam liberdade,
liberdade para dialogar mais tempo,
tempo que urge do ontem para o hoje,
hoje que é um degrau para amanhã.
Amanhã é um caminho longo,
longo para deixar escorrer a luz,
a luz que preenche o vazio,
o vazio das dúvidas que me habitam,
que me habitam e perseguem na incerteza,
incerteza que tantas vezes estilhaça,
sem saber se é o momento
de deitar para fora
o que está dentro de mim.

Para ti, mãe,
que gostavas tanto da primavera…
Lembro-me de esperares pela primavera
para partires.
Talvez
quisesses levar esses dias
que nascem em silêncio
e, passo a passo,
se vestem de cores e frescos odores.
Lembro-me de esperares pela primavera
para partires.
Talvez
para que as nossas lágrimas
fossem rega para as flores do teu jardim.
Como tu gostavas da primavera,
de mexer a terra e dela colher amor,
amor que semeavas com sabedoria
e simplicidade…
Relembro-te,
entre a saudade que dói,
e a saudade que se veste de vaidade
ao falar de ti…
e ao sentir que vives
em todas as minhas primaveras.
Para sempre,
a tua menina.

Por um qualquer lugar habitado
Estou eu,
Sem pertencer aqui
Nem a nenhum lado.
Pesa-me o caos que comigo trago
Pesa-me um certo cansaço
Pesam-me as palavras dos certos
A desfilarem sobre as minhas dúvidas.
Eu, que aqui estou,
O lugar onde me encontro
Continua habitável
Por mim,
E pela companhia da minha solidão.